MPB E CORDEL NO DIVÃ DE RACHEL
Albir
Entre o tédio e o deslumbramento
Tenho sempre no coração de estudante
uma fé miltoniana.
Choro de dores que não sinto
invejo todos os amores
cai o meu mundo todo dia
quando ouço e ressuscito Maysa.
Carente, quero teus braços abertos
com a desculpa de fazer o país de Marina.
Sambo sem saber sambar
misturo chicletes com banana
já que som do pandeiro não sei tirar.
Tenho uns olhos tristes de Carolina
menos por tristeza
que por queda genética e temporal das sobrancelhas.
Ainda com Chico, minto
quando troco de calçada
e antes que se dane a rosa dos ventos
faço uma salada de flores e efeitos
no sanatório geral.
Desespero na rua de Caetano
quando atravessas e não me olhas
só porque eu quero ir embora
quero dar o fora
quero que corras porque o sinal de Paulinho vai abrir
e se está fechado tenho pressa
é quando abre que fico de novo sem saber aonde ir.
Como não sei cantar fados
e, não sendo Pessoa
não me permito ser vil
Claudico
nos domínios de Cláudia
tentando ler minha história
nos acordes do Brasil.
O Tiro < xml="true" ns="urn:schemas-microsoft-com:office:office" prefix="o" namespace="">
Karla Candal
Tiro
Boto
Tiro
Arma
Tiro
Coloco
Tiro
CErteiro
ACERta
a
Incerta
bala
a
CErta
a
Mira
INCerta
colocação
a
mira
do
meu
coração
AZUL
Clarisse Faria
Janela que se abre
Em salpicado céu
de nuvens efêmeras e translúcidas-
Sua expectativa.
Mar infindo
De ondas perpétuas
e persistentes-
Sua alma que se oprime.
Velho jeans desbotado
Bala de anis roubada da sua boca.
O cheiro de alfazema de seus cabelos
e de lavanda do meu livro de escrever-
Nostalgia.
O som do saxofone fluindo da vitrola
E o de Pixinguinhha vertido no choro
Sentido de prazer nas coisas tristes-
Melancolia.
Borboleta saída do casulo
molhada de orvalho
fresco da manhã benfazeja.
Seus olhos que me enxergam
vestida de violetas,
e ignoram
meu olhar de tempestade.
Vestida para Matar
Marinette
Naquele dia levantou-sentido-se especialmente bela. Lavou-se demoradamente. Tomou seu café sem pressa.
Não podia, contudo, “esquecer-se” do detalhe mais importante: a arma, uma pequena pistola dourada.
Antes de guardá-la acariciou-a , apalpando-a delicadamente. Hoje estaria tudo terminado. Colocou as luvas macias, olhando-se mais uma vez no espelho e saiu. Seus passos eram firmes e determinados.
A brisa fresca da manhã a fazia sentir-se renovada. Um leve sorriso acalentava seu rosto. O corpo delicado ondulava a cada passada, ritmadamente. Caminhou por alguns segundos e fez sinal para um carro de aluguel.
Ao entrar no veículo seu aroma peculiar derramou-se. O motorista, então observou-a, detidamente, pelo retrovisor.
Partiram em busca do destino solicitado.
Trinta minutos depois, o automóvel parava em frente a um motel barato. Ela pagou a corrida e desceu. O carro partiu silencioso.
Entrou no prédio e a recepcionista lhe entregou a chave sem nada perguntar. O local não era nada agradável.
Ela, feminina em seu traje, destoava completamente daquele ambiente. Subiu as escadas cujos degraus rangiam.
Ao chegar à porta do quarto 3A deu três batidas. Alguém veio abrir. Ela sorriu e entrou. Passaram-se algumas horas até que um surdo estampido fosse ouvido. Não houve nenhuma movimentação diferente. Ninguém se alarmou ou se incomodou. A porta do quarto < xml="true" ns="urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" prefix="st1" namespace="">
Ao anoitecer, a arrumadeira observa a porta entreaberta e resolve entrar. Na penumbra do quarto, vê, perplexa, estendida sobre a cama, uma bela moça loura em seu tailleur vermelho, manchado de sangue.
Se eu fosse eu
Gerardo Carnevale
Se eu fosse eu, certamente seria mais intenso. Seria menos você e mais eu. Mais aquilo que vive dentro de nós e poucas vezes ousamos mostrar. Seria mais despojado, menos preocupado, talvez até mesmo menos atencioso. Poderia até duvidar de ser eu mesmo.
Se eu fosse eu mesmo, não me conheceria, porque para se conhecer você precisa do outro. Precisa se ver no outro, para reconhcer a sua identidade. Sem o outro não somos, e se não somos sem que o outro perceba a nossa existência, só podemos ser através dad perspectiva de outrém, mas se nós vemos e somos pela perspectiva dos outros, acabamos por não ser o que somos.
Desta forma se eu fosse eu, apenas eu, não seria ninguém.
Triângulo Equilátero
Isaias Goldsmid
Caía forte a chuva desta vez. Valeram, finalmente, as súplicas endereçadas ao padroeiro e a todos os santos lembrados em longas novenas por aqueles pobres famintos que, por meses, percorreram as ruelas do povoado.
O cheiro de terra molhada que o chão quente emanava, recarregava de esperanças as almas já ressecadas por aquela dura realidade. O barulho dos trovões ecoava pelas trilhas de barro batido. Verdadeiros riachos se formavam no lugar onde de costume a densa poeira lhes devastava narinas e pulmões.
As nesgas de terra, fruto de outrora verdejantes pastos, se espalhavam no desgastado relevo tal qual um tabuleiro velho de xadrez. Aqui e ali viam-se pequenas choupanas, em cujo redor pastavam esquálidas cabeças de gado.
Janaina, de sua casa, observava a chuva forte pelas frestas da taipa. Divertia-se quando uma rajada mais forte de chuva a fazia esconder-se atrás da cortina de chita, bastião e testemunha de tantas secas devastadoras. A cadência dos trovões marcava o compasso da melodia que cantarolava em sua mente, fazendo lembrar o estardalhaço do bumbo da banda do mestre Severino. No seu íntimo, porém, sofria com a idéia de que Pedro, seu marido, tivesse ainda a caminho do mercado municipal, onde, uma vez por mês se dirigia para trocar produtos agrícolas extraídos de sua modesta plantação.
Desta vez Pedro não havia ido sozinho. Levara na garupa Zacarias, seu único filho. No pensamento de Pedro, já era mais do que hora do menino começar nos ofícios da terra, fossem quais fossem as ameaças de chuva, coisa que Janaina, preocupada, tentou justificar para adiar a ida de Zacarias.
O cavalo, o único de que dispunham, não era o mais adequado para a tarefa, visto o peso da carga que levava.
A agonia em vê-los retornando parecia estar começando. Enquanto Janaina observava a chuva que caia forte, pensava no amor que inundava aquele lar. Lembrava o quanto Pedro e Zacarias eram importante para ela. Como companheiro, não havia no povoado homem igual. Lembrou-se de como haviam se conhecido na festa da igreja, do namoro na porta de casa, dos amassas no canavial, que resultou na gravidez e daí Zacarias, menino alegre e esperto, adorado por todos.
Há dias não acendia uma vela à Nossa Senhora de Lourdes em agradecimento a toda a alegria que desfrutava, como sempre fazia. Sentiu-se mal agradecida e prometeu ir à igreja tão logo Pedro e Zacarias voltassem da cidade.
A chuva parecia piorar e Janaina já não conseguia conter sua preocupação. Olhava fixamente para a porteira na esperança de ver Pedro e Zacarias voltando no meio do aguaceiro. Nada, no entanto, alterava aquele cenário de vento e chuva.
A noite já dava seus primeiros sinais quando Janaina percebe, em meio aos clarões dos raios, um cavalo sendo puxado por alguém que procurava se proteger da chuva. Ao ver a lamparina da casa de Janaina acesa, aproxima-se da porteira e de longe, num apelo comovido, a ela suplica por abrigo.
Janaina sente-se na obrigação de acolher aquele estranho que trazia na voz o medo da morte. O cobertor encharcado que lhe servia de proteção, assim como o chapéu deformado pela chuva que lhe cobria a cabeça, impedia ver sua figura. Ao entrar, Janaina dá-lhe um trapo para que lhe sirva de agasalho. Na penumbra da sala pouco se falam durante os primeiros momentos. Janaina percebe que as mãos dele tremem de frio e com a ajuda da lamparina encontra uma velha camisa de Pedro. Cede-lhe a camisa enquanto o visitante enxuga os vastos cabelos.
Aos poucos transfigura-se o visitante num homem de bonita aparência, cabelos e barba longos e negros. As feições finas e claras acabam por dar-lhe uma aparência familiar.
Janaina fixa-lhe o olhar e um calafrio lhe percorre a alma. Não podia dar crédito ao que sua vista, embaçada pela luz fraca da lamparina, parecia querer lhe mostrar. Aproxima-se do visitante a procura de uma melhor visão. É quando seu coração dispara, confirmando o que a sua mente tentava negar.
Com a voz cheia de emoção, pronuncia o nome daquele que um dia foi o seu maior amor - Ildebrando.
Em segundos sua mente resgata o passado que tanto lhe custou esquecer. Não imaginava que o destino lhe daria ao menos a possibilidade de conhecer os motivos da separação tão inesperada que se deu tanto tempo atrás, quando o amor estava em seu auge. Ildebrando, engasgado de surpresa pela emoção do reencontro, trazia ainda o carinho da antiga relação. Trôpego, procurou as palavras que conseguissem expressar o seu sentimento. Lembrou da agonia que viveu ao partir do povoado sem que pudesse informá-la os motivos. A saúde de sua mãe forçara uma viagem de emergência enquanto Janaina havia ido visitar seus pais na capital. O que para ele parecia ser uma viagem curta, tornou-se definitiva, decorrente da morte da mãe, obrigando-o a permanecer com parentes até o final dos estudos. Restou-lhe pedir desculpas.
O encontro inesperado havia atendido a sua vontade de rever Janaina. Estava recém chegado ao povoado em visita ao tio que ali ainda morava.
Após as primeiras explicações Janaina percebe que a raiva que mantinha de Ildebrando aos poucos cedia e a lembrança dos bons momentos que passaram juntos começou a aquecer a sua alma.
Ildebrando observava a singela beleza de Janaina e lembrava-se dos beijos e as ardentes carícias que comumente trocaram à saída do grupo escolar.
A chuva lá fora não parecia querer parar. Janaina pensava em Pedro e
Janaina sentia um vulcão se manisfestando em seu corpo.
Num instantezinho só, Ildebrando dava-se conta que sentia falta do corpo de Janaina. A chuva, o frio e todo o passado como álibis que autorizassem uma explosão de desejos.
O frio provocado pelo vento favorecia um encontro de corpos. O estalar dos trovões convidava ao rompimento dos grilhões que por tanto tempo carregavam em suas almas. Ainda que não soubessem mais disso.
Janaina e Ildebrando não puderam conter o desejo que agora se permitiriam saciar.
Em meio àquele temporal, seus corpos sedentos se atiraram num frenesi de carícias e beijos. Mãos e pés se confundiam numa coreografia improvisada, mas harmoniosa. Seus corpos nus rolavam pelo chão em intensa excitação. Num orgasmo sincronizado, alcançaram o ápice de um momento sublime.
Finalmente, a chuva parecia ceder em sua fúria. Ildebrando e Janaina levantaram-se e vestiram suas roupas enquanto entreolhavam-se carinhosamente.
Ildebrando caminhou para a porta, e sem pronunciar palavra, montou em seu cavalo e partiu.
Um momento depois, Janaina maquia-se com a ajuda de um espelho fixado à parede, na certeza de que, com o final da chuva, a interminável espera por Pedro e Zacarias em breve chegará ao fim.
Como será bom vê-los de volta, pensa Janaina. A tarde havia sido longa e a chuva abundante.
O curso da vida precisa retomar ao ritmo normal.
De tudo fica um pouco
Maria Helena da Silva Oliveira
(inspirada em “Resíduo” de Carlos Drummond de Andrade)
De todos fica um pouco,
De avós, bisavós, tataravós,
Que eu tenha ou não conhecido,
De pai, mãe,
Da primeira professora,
Da imagem da tv,
Que me leva à terra onde nasci,
Às lembranças do primeiro namorado,
À primeira paixão da infância,
Ao sorriso cativante da minha tia,
Ao gesto envergonhado da minha sobrinha,
À inquietude da minha prima,
De tudo fica um pouco dentro de mim.
Das músicas românticas italianas da minha adolescência,
Do filme, o inglês que não traduzi,
Dos amigos de ontem, dos amigos de hoje,
Dos irmãos, do marido, dos filhos que pari,
De tudo tem um pouco em mim,
Impregnou de alguma forma,
Interfere nas atitudes, no modo de estar, no relacionar,
Somou, diminuiu, qualificou,
Razão de ser, necessidade de intervir,
O gostar, o desgostar, o respeito, o deslumbramento,
A energia do mar, do céu, das montanhas, do verde,
As cores das plantas, das pedras, da terra daqui e de acolá,
Da notícia dos jornais, das revistas,
Das fotografias, dos romances, contos, historinhas,
Dos romancistas, poetas, biógrafos, filósofos, cientistas, jornalistas,
De tudo eu tenho um pouco,
E tudo interfere, não sei como, nas atitudes de agora,
No que eu quero, no que eu faço,
De tudo eu tenho um pouco,
De tudo isso e muito mais eu aprendi.
Ela e a Outra
Lenora Barreda
Em mim há Ela, e há a Outra.
Ela é ardente, a Outra é calma.
Ela é fresca, a Outra é curtida.
Ela é impetuosa, a Outra é suave.
Ela é paixão, a Outra amizade.
Ela é quente, a Outra é comum.
Ela é divertida, a Outra é monótona.
Ela me trás novidades, a Outra é repetitiva.
Ela é breve, a Outra é eterna.
Ela é falante, a Outra ouvinte.
Ela é bela, a Outra é sábia.
Ela é prepotente, a Outra é segura.
Ela é egocêntrica, a Outra é doadora.
Ela é internacional, a Outra é nacionalista.
Ela é de esquerda, a Outra de direita.
Ela me escreve cartas de amor, a Outra me fala de amor.
Ela me olha nos olhos, da Outra eu escondo meu olhar.
Ela é atarefada e ocupada, a Outra é sempre solícita e presente.
Ela é contos de fadas, enquanto a Outra é rotina.
Ela tem cheiro de mar aberto, a Outra de Porto seguro.
Ela é professora, mas a Outra tem os ensinamentos.
Ela adora dançar, enquanto a Outra não ousa tentar.
Ela me agita, mas a Outra sempre me acalma.
Ela pode ser um futuro, a Outra é o meu presente.
Ela é livre e independente. A Outra me prende e me controla.
Ela me faz sorrir, a Outra sorri para mim.
Ela me faz chorar e a Outra me consola.
Ela é ousada demais, a Outra previsível além da conta.
Ela ainda é secreta , a Outra é pública.
Ela pode ser uma grande mentira. A Outra é a minha grande verdade.
Ela é recente, A Outra é parte da vida.
Uma é bossa-nova e a outra é heavy metal.
Com Ela, as horas são intensas, com a Outra, os dias são tediantes...
Sem Ela, a vida é preto e branco. Com a Outra, a vida tem tons pastéis.
Quando Ela me abraça, eu sonho, quando a Outra me abraça, eu finco meus pés no chão.
Sem a Outra eu perco a base, pois é estrutura, é ninho.
Mas Ela sempre me puxa, Ela me encanta, Ela me fascina...
Só Ela colore meu coração.
Ela é especial, mas a Outra é também.
Ela é inteligente, mas a Outra também é.
Assim...
Vai depender do dia e da hora.
Depende do clima...
Depende da lua...
Depende de mim.
Porque Ela diz que me ama.
A Outra morre de amores por mim.
Os sons do “sim”
Daniel Ferreira
A música suave deu lugar à impetuosa Marcha Nupcial. Enquanto as portas se abriam, ele pensou: “Não lubrificaram as dobradiças? Tomara que meu sogro espere a cerimônia acabar antes de reclamar com o padre”. Sussurros tomaram conta da igreja quando a noiva finalmente entrou. De onde estava, ouviu claramente diversas pessoas desaprovarem o figurino da moça, sem falar na sua feiúra. Para tomar o controle da situação, seu sogro pigarreou alto, fazendo com que o zunzunzum cessasse.
Durante a cerimônia, mal prestava atenção nas palavras do padre. Mentalmente, contabilizava a fortuna que ganharia com o enlace. Já estava praticamente ouvindo o tilintar de cada centavo do gordo dote que receberia de sua noiva quando se deu conta de que o padre se dirigia a ele. Embaraçado, respondeu com um fiapo de voz: “Aceito!”
Um turbilhão de vozes envolvia o casal durante a festa que seguiu à cerimônia. Eram parentes, amigos e muita gente que os noivos não faziam idéia de quem era levando seus cumprimentos e felicitações, enquanto a orquestra tocava uma sonolenta valsa ao fundo. Emocionada, a noiva soluçava baixinho ao seu lado, o que lhe causava uma certa irritação, que procurava disfarçar cantarolando as melodias que a orquestra executava. Pelo som das taças de champagne se chocando em brindes incessantes, pôde constatar que a sogra comprara cristais novos para ocasião. Ao ouvir o milionésimo espocar do flash do fotógrafo, sussurrou entre dentes a um dos padrinhos “pareço feliz nas fotos?”. “Não”, respondeu o amigo, em tom de confidência. “Parece rico.” O noivo então sorriu, satisfeito. “Rico.” Isso era música para seus ouvidos.
Ontem eu fiz Amor
Ramona Torres
Ontem eu fiz amor... como diria Machado de Assis: sim, meu caro leitor, Amor!
Muitos dirão, eu faço todos os dias. Outros dirão... eu faço sexo! Eu não, eu também já fiz e faço, sexo chulo, com nome de amor. Mas ontem... ah ontem... eu fiz de verdade.
Não fiz somente amor, mas sim amor pleno. Nos desembrulhamos, ele já estava pronto de muito tempo atrás.
Sem pretensão visitei uma amiga operada (benditos cálculos renais!!!!!) e lá estava o homem amado, com brilho nos olhos, saudoso. Eu também não estava disfarçando. A chuva caia forte, risos e conversas.
Convite para vê-lo ao violão. Despertou muitas lembranças. Me sentindo honrada, entrei na toca do escorpião, onde poucos são os admitidos, único lugar onde podíamos ser nos mesmos.
Quando anuncio logo ir, ele pediu:
– fique não há razão para ir... Te desejo.
E segurou em minha mão, beijando meu pescoço.
Decidi ficar. Este amor, há tanto tempo guardado, explodiu. Conversamos muito sobre tudo, menos sobre nós – isso já não era preciso dizer, estava saindo pelos poros de cada um de nós.
A luz foi apagada. A noite através da janela aberta, cumpliciava tudo.
Beijos, os mesmos. Beijos tímidos, mãos atrevidas, ardentes de desejo. Amor igual na receita universal. Um homem de falo ereto, uma fêmea intumescida.
Diferente de tudo que já vivi. Tão cheio de sentimento, corpos aflitos de saudades. Não era preciso dizer nada, só sentir. O mesmo gosto de cigarro, o cheiro de cravo da índia, o gosto da boca dele, o mesmo chamar para deitar em seu peito. O conforto do abraço, o carinho, o servir da água, a pitada depois do amor físico, fumaça invadia o amor no ar. Risos e conversas no escuro.
Despojados de tudo, das palavras, do sentimento escondido, dos medos. Eu nua com a blusa dele, ele nu com o cheiro da minha pele.
Deitamos juntos, abraçados. Mas na verdade não dormimos. Mansamente as emoções se agitavam dentro de nós, ali casados e enganchados, naquele amor sem peso, sem espera, sem amanhã...
Eu e meu homem amado, como há muito tempo atrás.
Sem mancha sem mágoa, sem futuro, sem passado. Só o gosto dele, só os eternos minutos.
É leitores, ontem eu fiz amor como nunca tinha feito antes. Amor verdadeiro. Pela manhã nos despedimos e uma lagrima furtiva teimou em descer dos olhos dele.
Deixemos assim, no encanto; se terei uma outra vez, não sei.
Mas ontem, como rainha, ao menos uma única e prazerosa vez, eu amei, eu fiz amor.
Voyeurismo
Nadia Lamas
A casa dela era vizinha à dele, num subúrbio mais distante e esquecido que qualquer outro.
Era ali, naquela varanda próxima ao quintal, o cômodo mais bem iluminado da pequena casa, que ela passava a maior parte do seu tempo. Precisava de luz para suas atividades: ficava horas lendo os livros que trazia emprestados da biblioteca, e sempre tinha tarefas do colégio para fazer em casa.
Mudara-se para lá criança ainda. Logo descobriu o garoto travesso da casa ao lado que a observava sem parar, quase sempre com um sorriso indecifrável que tanto podia ser provocação como uma simples tentativa de fazer contato.
Moleque, ele passava boa parte do tempo no modesto quintal empinando pipas, solitário. Seus dois irmãos mais velhos trabalhavam durante o dia e estudavam à noite.
Ele freqüentava um colégio público da vizinhança; ela estudava num colégio público de renome, aonde chegava depois de tomar duas conduções.
Rígido e conservador, o pai dela era considerado um homem de posses para os padrões locais, pois tinha um fusquinha na garagem. Isso era suficiente para intimidar os garotos do lugar, que a viam como alguém distante e inacessível.
Ali naquela varanda, julgando-se sozinha, ela sonhava seus sonhos de menina, visitava terras distantes, criava histórias a partir de sinopses de livros que não lera e imaginava infinitas possibilidades de futuro para si mesma.
Nos momentos em que, cansada, levantava os olhos dos cadernos ou dos livros, muitas vezes se dava conta de estar sendo observada, surpreendida pela presença dele. Noutras ocasiões, a leitura era interrompida pelo mero pressentimento da presença de outro alguém; ela desviava os olhos do papel e lá estava ele. Então seus olhares se encontravam, ele sorria um sorriso que a ela parecia de superioridade, de vitória, o sorriso de quem acaba de furtar alguma coisa.
Ela não gostava de se sentir observada, muito menos daquela maneira furtiva. Por vezes fingia não vê-lo. Com enorme esforço procurava aparentar indiferença e continuar seus afazeres. Ou disfarçava e saía do campo de visão dele, buscando abrigo dentro de casa. Sentia-se flagrada em sua intimidade, invadida, incomodada pela presença do intruso. Viviam uma delicada relação de cumplicidade, uma brincadeira de esconde-esconde. Compartilhavam aqueles momentos, só deles e de mais ninguém.
Os anos se passaram e eles cresceram, presos aos mesmos papéis: ele a observá-la sorrateiramente, ela mal suportando a sensação de se saber exposta.
À medida que cresciam, entretanto, cada vez ficavam mais escassos os momentos que ela passava na varanda e ele soltava pipa no quintal.
Até que chegaram à adolescência. Numa agitada, calorenta noite de dezembro no subúrbio, estava ela no portão de casa com outras adolescentes quando um portador passou e lhe entregou um envelope. Tomada pela curiosidade, ela abriu e devorou em minutos as mais lindas palavras de amor que iria ler em toda a vida. Em sua trajetória para tornar-se mulher, ainda viria a receber outras cartas, mas nenhuma como aquela. Em três páginas de pura emoção, ele tomava a coragem de revelar a paixão que nutrira em silêncio durante tantos anos. Enquanto ela lia, uma turbulência de pensamentos pontuava aquele instante mágico de revelação. Os sentimentos do vizinho tornavam-se claros como se um raio-X lhe atravessasse a alma, e ela se deu conta de que não era para zombar nem para rir dela que ele a olhava, mas para adorá-la à distância.
Algum tempo se passou e chegou a época de fazerem o vestibular. Ela tinha dezessete anos; ele, três anos mais velho, atrasara-se um pouco nos estudos, pois já trabalhava.
O pai dela, que se oferecera para dar carona ao vizinho, deixou-os de carro na porta da instituição onde fariam o exame.
Chegaram uma hora antes e, enquanto esperavam o momento de entrar, sentaram-se num degrau e tentaram quebrar o silêncio, mas tudo o que conseguiram foi um diálogo superficial e desajeitado. Nenhum dos dois fez a mais breve menção à carta. Foi a única vez em que ficaram próximos.
Fizeram a prova, saiu o resultado. Ela passou, cursou a universidade, se formou, casou e mudou. E eles nunca mais se viram.
Uma questão de interpretação
Kalindra Baba
Era louco por aquela música do Lupicínio:
Ter loucura por uma mulher"
